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Caixa Preta
V de Vingança...

Thriller - A Cruel Picture (Thriller - en grym film/1974) Direção: Bo Arne Vibenious Com: Christina Lindberg (Madeleine), Heinz Hopft (Tony), etc
Ontem, 1º de dezembro, o CineSesc exibiu um clássico do gênero exploitation em mais uma sessão maldita organizada pelo cineasta e agitador Carlos Reichenbach. Trata-se do sueco "Thriller - A Cruel Picture", filme de 1974 que ganhou sobrevida depois que Quentin Tarantino confessou ter usado sua protagonista como modelo para a personagem de Daryl Hannah, em "Kill Bill". Mas tem muito mais material de "Thriller" reprocessado no filme de Tarantino, como o aprendizado da personagem em artes marciais e sua vingança metódica, entre outras coisas.
A trama é das mais cruéis e justifica o título original (o filme seria renomeado "They Call Her One-Eye" para lançamento nos EUA): menina é violentada por mendigo e o trauma a deixa muda. Anos mais tarde, aceita carona de um estranho que a dopa e a vicia em heroína, transformando-a em prostituta. Após agredir o primeiro cliente, ela tem o olho furado como punição e passa a usar um tapa-olho (reza a lenda que um cadáver foi utilizado na cena da perfuração...). Como se não fosse suficiente, o cafetão escreve uma carta aos pais da garota afirmando que ela fugira de casa por não suportar a vida familiar. Os pais, completamente deprimidos, se suicidam por envenamento. Todos esses fatos transformam-se em combustível para a vingança sangrenta de Madeleine.
Há alguns buracos no roteiro e as atuações são bastante irregulares, mas o filme parte de uma premissa bem clara para justificar a matança promovida pela garota. Nesse sentido, é um exploitation clássico. As cenas de abuso, inclusive, são mostradas de forma explícita, o que reforça a idéia que tal material filmado deve causar prazer em certas platéias. Com esse mesmo propósito, foram inseridas diversas seqüências de sexo explícito com uso de uma dublê de corpo (Christina Lindberg trabalhou em vários filmes eróticos, mas jamais praticou sexo real em frente às câmeras). O problema é que as situações não têm profundidade psicológica, impedindo o espectador de aproximar-se mais do drama da garota explorada. A culpa é, em parte, da parca construção de personagens. Fica difícil se identificar com personagens com tão pouca verossimilhança.
A diferença de "Thriller" para outros exemplares baratos de exploitation é a preocupção artística de seu diretor, um ex-assistente de Ingmar Bergman. A história se desenrola como um pesadelo ou, numa melhor definição, uma bad trip causada por alucinógenos. Contribuem para essa sensação, o score musical pertubador, a pouca quantidade de falas (claro, a personagem principal é muda...) e algumas tomadas engenhosas feitas para simular a visão de Madeleine. De quebra, foi usado ainda um recurso técnico estranho: as cenas de luta e tiroteio foram fotografadas com câmeras especiais usadas para registrar testes de foguetes a 500 frames por segundo. O resultado são as mais loooongas seqüências de slooooow motion da história do cinema. Afirmo isso por minha conta e risco.
A vingança de Madeleine é tramada nos moldes da Noiva, de "Kill Bill": a garota tem aulas de artes marciais e vai de inimigo em inimigo promovendo a matança. A diferença para a personagem de Uma Thurman é que a menina de "Thriller" teve sua vida destruída duas vezes (infância e adolescência): lhe arrancaram a inocência, depois a capacidade de se expressar (voz), a fizeram vender o corpo, a viciaram em drogas, lhe tiraram parcialmente a capacidade de ver (um olho) e causaram a morte de seus pais. É uma lógica meio fascista, mas o que mais restaria além de um acerto de contas tão sanguinolento?! E em termos de estilo, a ninfeta sueca vira ícone da estética dos filmes B: um tapa-olho combinando com as peças de roupa, o sobretudo preto e uma espingarda calibre 12 com canos cerrados.
O delírio de "Thriller" segue até o final, com um desfecho que parece saído de algum spaghetti western infernal. A experiência toda é quase alucinógena e justifica o hype em torno do filme. É, sim, uma das viagens cinematográficas mais extravagantes em muito tempo, construída a partir de inusitados recursos técnicos e visuais. Para uns, é um filme B metido à besta. Para outros, um clássico do cinema maldito.
Na dúvida, tente assistir.

Escrito por Mr Eddy às 19h09
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